Caracterização de ambientes de Produção

Caracterização de ambientes de produção para culturas em rotação com a cana-de-açúcar

Denizart Bolonhezi
Pesquisador científico do Centro de Cana do Instituto Agrônomico, IAC.

 

O cultivo de leguminosas comerciais na reforma de canaviais é uma prática importante, tradicional, mas que durante décadas ficou restrita a algumas regiões canavieiras. Nas últimas safras, devido aos bons preços de mercado, os cultivos da soja e amendoim expandiram-se, sobretudo em parceria com o setor sucroenergético, ocupando áreas antes cultivadas com adubos verdes ou que permaneciam em pousio. Durante mais de quatro décadas de cultivo em terras paulistas, a cultura da soja não ultrapassou 550 mil hectares. Contudo, nos últimos 4 anos, a área dobrou no Estado de São Paulo, chegando na safra corrente a mais de 1 milhão de hectares. Nos últimos 20 anos, a cultura do amendoim aumentou em 46%, 67% e 13% a área cultivada, a produção e a produtividade, respectivamente. As duas culturas se destacam pela intensiva adoção de novas tecnologias, as quais conferem ganhos expressivos em produtividade e eficiência nas operações de semeadura, tratos culturais e colheita.

Porém, em virtude das adversidades climáticas, cada vez mais frequentes, ocorre redução da capacidade de expressão do potencial produtivo dos novos genótipos. Conhecer a diferença entre a produção potencial e a real, o que chamamos no ambiente acadêmico de yield gap, bem como suas causas, auxilia no planejamento das atividades e melhora a performance das lavouras. De acordo com Sentelhas et al. (2015), a deficiência hídrica e o manejo da cultura são responsáveis por 74% e 26% do yield gap da soja no Brasil, respectivamente. Para o amendoim, resultados gerados em outros países demonstram que o manejo inadequado da lavoura pode reduzir em 68% o potencial produtivo (Sonawane et al., 2016). A compreensão das características do ambiente de produção é uma importante estratégia para melhorar o potencial produtivo das culturas. Com base na pedologia e classificação do solo, é unânime o conceito de ambiente de produção para cana-de-açúcar, o qual tem mais de 25 anos de lastro de conhecimento técnico, e determina a escolha da variedade a ser cultivada (matriz varietal), dentre outras recomendações técnicas (época de plantio e colheita). Mas, esse conceito pode ser extrapolado para as culturas usadas na rotação dos canaviais? Um ambiente considerado favorável/desfavorável para cana-de-açúcar, também o será para soja ou amendoim cultivado na reforma?  Estas questões necessitam de resposta, a fim de melhorar as parcerias no sistema de produção cana/grão. Para tal, são imprescindíveis os conhecimentos fornecidos pela pedologia, mas também deve-se considerar que o sistema radicular dessas leguminosas exploram camadas mais superficiais do solo e são cultivadas nos meses de primavera/verão, ao contrário da cana-de-açúcar, que é semiperene e desenvolve raízes em maiores profundidades.

Considerando este contexto, dois projetos estão em desenvolvimento no IAC nas últimas duas safras, denominados Ambisoja e Ambiamendoim. O projeto Ambisoja é desenvolvido em parceria com a Bayer e consiste na avaliação do desempenho agronômico de 18 genótipos de soja cultivados em 22 locais, nas diferentes regiões canavieiras paulistas, nas safras 2019/20 e 2020/21. Os objetivos do projeto são: identificar estratos de produtividade em função da classificação do solo, aspectos químicos da fertilidade, físicos (CAD) e das informações microclimáticas, identificar perfil de genótipos de soja mais adaptados para reforma de canaviais (produtividade e raiz), bem como

O projeto denominado Ambiamendoim tem financiamento da Fundação Agrisus e conta com a parceria da Timac Agro e da COPLANA. Diferentemente da soja, existem poucos genótipos disponíveis para cultivo. Por conseguinte, os objetivos estão mais relacionados à identificação de estratos produtivos e as correlações com as características edafoclimáticas e algumas informações sobre qualidade biológica do solo (bioanálises). O intuito de incluir algumas informações sobre status microbiológico do solo (enzimas, glomalina e % de micorrizas) justifica-se pela conhecida interação dessa oleaginosa com a biota do solo e que podem auxiliar na caracterização dos ambientes. Deve-se ressaltar que estão incluídos outros sistemas de produção, tais como amendoim em reforma de pastagem e em outros arranjos de culturas. Resultados preliminares, utilizando banco de dados das safras 2017/18, 2018/2019 e 2019/2020, totalizando 43 áreas monitoradas (concentradas na região de Tupã/SP), permite dizer que é possível obter tetos produtivos acima de 700 sc/alq de amendoim em reforma de pastagem e cana, em solo classificado como Neossolo Quartzarênico. Nessa safra, a rede experimental compreendeu 45 campos comerciais distribuídos nas mais diferentes condições edafoclimáticas.

O desenvolvimento desses dois projetos não tem a pretensão de responder, em tão curto espaço de tempo, as questões apresentadas nos objetivos, mas é um primeiro passo para a construção desse conceito. Doravante, com a maior participação do setor produtivo e já aperfeiçoada e validada a metodologia (Fig. 1, 2 e 3) de avaliação on farm, empregada nos dois projetos, será possível construir um banco de dados robusto que certamente auxiliará os produtores de grãos na tomada de decisão sobre posicionamento de cultivares e opções de manejo.

Deixe seu comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Nome*

Email

Website