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Seletividade de herbicidas à cultura da cana-de-açúcar

Breno Fernandes Campos / Carlos Alberto Mathias Azania / Andréa A. P. Mathias Azania

Normalmente, não há como evitar a presença de plantas daninhas na cana-de-açúcar. Elas podem provocar um alto impacto na produção da cultura, e seu controle representa parte significativa dos custos de produção. Dentre as várias alternativas de manejo de plantas daninhas, o controle químico se destaca pela complexidade e quantidade de variáveis que podem influenciar a sua ação. O herbicida é um produto químico de alto valor, exigindo, portanto, boa eficácia e seletividade para justificar sua utilização no controle de plantas daninhas.

Devido à semelhança morfológica e até mesmo metabólica entre algumas espécies de plantas daninhas e a cultura da cana-de-açúcar, é normal enfrentarmos riscos de intoxicação, quando utilizamos herbicidas como alternativas de manejo. A seletividade pode ser definida como a capacidade que os herbicidas têm em matar ou retardar o crescimento das plantas de uma ou mais espécies, e ao mesmo tempo ter a capacidade de não prejudicar outras plantas de interesse comercial.

O termo ‘seletividade’ é uma característica inerente ao herbicida, ao passo que os termos ‘tolerância’ e ‘resistência’ são relacionados às características específicas das plantas. Portanto, é correto relatar que dado herbicida ‘X’ é seletivo à cultura da cana-de-açúcar. Da mesma forma, também é correta a interpretação em que afirma-se que a cultura é tolerante e/ou resistente à aplicação de determinado herbicida.

A seletividade dos herbicidas não é absoluta. Por depender do herbicida, das condições ambientais e do modo de aplicação, podemos afirmar que a seletividade é relativa. Qualquer alteração no herbicida (dose, modo de ação, número ou intervalo de aplicações), ambiente (tipo de solo, umidade, matéria orgânica) ou nas plantas (variedades, modo de aplicação), poderá fazer com que o herbicida seja seletivo à cultura em uma situação e não seletivo em outra.

Com relação ao herbicida, é importante sempre o uso das doses recomendadas pelos fabricantes, uma vez que a aplicação de doses maiores aumenta consideravelmente a chance de fitotoxicidade à cultura causada pelo produto. Essa “fito” (como é popularmente denominada) nem sempre é visível na cultura. Dependendo do modo de ação do herbicida utilizado e do momento de aplicação, pode ocorrer a “fito oculta”, em que não há nenhum sintoma visual de injúrias causadas pelo produto. Entretanto, o seu uso promove reduções na quantidade e/ou qualidade da produção final. Além da dose, outros fatores relacionados ao herbicida, que também influenciam na sua seletividade, são: ingrediente ativo utilizado, uso de adjuvantes junto à calda de aplicação, formulação do herbicida, número de aplicações, intervalo entre aplicações, dentre outros.

O ambiente também influencia diretamente na seletividade dos herbicidas. No caso de herbicidas pré-emergentes ou PPIs (Pré-Plantio Incorporado), deve-se atentar dentre outros fatores, principalmente para o tipo (textura) de solo, uma vez que solos arenosos demandam menores doses de herbicidas quando comparados a solos argilosos. Portanto, um mesmo herbicida, aplicado na mesma dose, pode ser seletivo à cana-de-açúcar em um solo argiloso, e ao mesmo tempo promover sérias injúrias em um solo arenoso.

Outros exemplos de fatores ambientais que influenciam a seletividade dos herbicidas pré-emergentes e PPIs são: matéria orgânica (ou quantidade de palha), pH e umidade do solo. Com relação aos herbicidas pós-emergentes, a temperatura (e consequentemente o horário de aplicação) também pode influenciar ambientalmente, promovendo uma maior ou menor seletividade de determinado produto. Esta característica é muito específica do ingrediente ativo utilizado, já que para alguns mecanismos de ação, maiores temperaturas podem significar uma ação mais rápida do produto na planta, aumentando, consideravelmente, a fitotoxicidade. Para outros mecanismos, temperaturas mais baixas (como por exemplo em aplicações noturnas) podem promover uma persistência mais longa do herbicida no interior da planta e também gerar sintomas de injúria.

Além dos fatores inerentes ao herbicida e ao ambiente, existem detalhes relacionados à planta que também influenciam diretamente na seletividade dos herbicidas. Além de diferenças varietais, estudos estão sendo conduzidos, visando avaliar a seletividade de diferentes programas de controle químico nos novos sistemas de MPBs (Mudas Pré-Brotadas) em comparação ao sistema convencional de plantio. Além disso, deve-se atentar ao modo de aplicação do herbicida em relação à cultura. Aplicações em pós-emergência são geralmente mais fitotóxicas à cultura quando comparadas a aplicações em pré-emergência. Ainda dentro dos pós-emergentes, quanto mais avançado for o estágio de desenvolvimento da cultura (e portanto maior área foliar), maiores serão as chances de fitotoxicidade.

Algumas plantas daninhas, de mais difícil controle, têm se destacado como importantes na cultura da cana-de-açúcar como o capim-colonião (Panicum maximum), capim-camalote (Rottboellia exaltata) e convolvuláceas (Ipomoea spp. e Merremia spp.).  Assim, têm-se buscado mecanismos alternativos de controle para as referidas espécies, como por exemplo, através do uso de herbicidas não seletivos para a cultura através de aplicações na entrelinha ou somente “catação” das sobras de ervas mal controladas por herbicidas residuais.  No entanto, o uso desses produtos na entrelinha, uma vez que são não-seletivos, deve ser seguido de cuidados especiais, como uso de bicos específicos, protetores do jato de pulverização e operação controlada, de forma a não atingir caule ou folha da cana-de-açúcar.

Algumas empresas privadas estão buscando o desenvolvimento de variedades de cana-de-açúcar, geneticamente modificadas, com resistência a alguns herbicidas não-seletivos, visando melhorar a flexibilidade de controle de plantas daninhas, com reduzido risco de injúrias. Entretanto, maiores estudos serão necessários para avaliar o real benefício e possíveis efeitos adversos da adoção dessa tecnologia. Portanto, é notável a complexidade da decisão que envolve a escolha do herbicida a ser utilizado. O herbicida deve ser escolhido em função do mapeamento de plantas daninhas presentes na área, assim como outras decisões relacionadas ao momento de aplicação, dose, solo, temperatura, etc. Todas essas variáveis são de fundamental importância para se obter um controle eficiente da comunidade de plantas daninhas, sem que haja prejuízos à cultura decorrentes de injúrias (visíveis ou não) causadas pela utilização de herbicidas.

Breno Fernandes Campos é Pesquisador Científico da Syngenta; Carlos Alberto Mathias Azania é Pesquisador Científico do Instituto Agronômico de Campinas; Andréa A. P. Mathias Azania é consultora.

 

Produtor, antes de qualquer iniciativa, procure sempre as orientações do Agrônomo da Coplana de sua região. Nossa equipe está preparada para indicar os produtos e procedimentos com melhores custos-benefícios.

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Carlos Alberto Mathias Azania

Foto: Divulgação

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